O Estrago da Lama – Espaço do Conhecimento UFMG
 
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O Estrago da Lama

Um ano após a maior tragédia ambiental do país, pouco foi feito. Os estragos da lama, repleta de rejeitos de mineração da Samarco, ainda ecoam na vida dos moradores de diversos municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo. Junto às cidades, foram devastadas, também, a cultura e a tradição locais. O descaso com a população, combinado a ações ineficientes e à ausência de responsabilização efetiva das empresas envolvidas, torna o caminho da lama ainda mais tortuoso.

Diante de um cenário cercado de impunidades, os moradores vêm lutando para manter vivas suas memórias e garantir seus direitos. Discutir esse quadro social foi a proposta da última edição do Café Controverso de 2016, O Estrago da Lama. Participaram do debate Lucimar Muniz, proprietária de terreno em Bento Rodrigues atingindo pelo rompimento da barragem, e Raquel Oliveira, Professora do Departamento de Sociologia da UFMG. O evento foi acessível em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).

Percurso doloroso
Eram quase quatro da tarde quando um mar de lama invadiu Bento Rodrigues. Os 15 minutos que se seguiram pareceram eternos: cerca de 40 milhões de metros quadrados de rejeitos de minério de ferro, provenientes do rompimento da barragem de Fundão, das mineradoras Samarco, Vale do Rio Doce e BHP, devastaram o subdistrito de Mariana. Por onde passou, a lama destruiu casas, famílias e vidas, deixando 19 mortos e centenas de feridos. A bacia do Rio Doce, principal da região sudeste, foi totalmente poluída, impedindo as atividades de pesca da população ribeirinha e o abastecimento de água em municípios da região central de Minas Gerais e do litoral do Espírito Santo.

Mas os estragos não param por aí: dos inúmeros processos existentes contra a Samarco, grande parte foi suspensa ou ainda nem sequer chegou a ser analisada. Enquanto isso, a empresa tem empreendido ações na justiça para dar continuidade às suas atividades. Lucimar Muniz é uma das proprietárias do terreno tombado onde está em construção o quarto dique da mineradora em Bento Rodrigues, que serve para sustentar os rejeitos que sobraram da barragem rompida. Sem receber qualquer tipo de informação, ela e a família aguardam uma resposta, que nunca chegou. “Não fomos indenizados por isso, esse processo é uma coisa bizarra”, conta. Quando chegou em Bento, após a tragédia, o cenário que encontrou foi desalentador. Do sítio em que passava as férias desde a infância com a família, não sobrou nada.

Todos esses efeitos, segundo Raquel Oliveira, professora do Departamento de Sociologia da UFMG, ultrapassam a dimensão física da tragédia, gerando um intenso e duradouro sentimento de sofrimento nos atingidos. “Por mais que se empreguem medidas de cunho social e econômico, essas ações têm um limite. Apesar da possibilidade de reapropriação do território, há uma história e uma memória que são irredutíveis”, afirma a pesquisadora, que desenvolve estudos em torno da temática ambiental.

Café Controverso
O conhecimento raramente passa pelo consenso, e sua construção se faz sempre pelo diálogo. Nos Cafés Controversos, os temas são amplos e diversificados. Na cafeteria do Espaço do Conhecimento, são abordados assuntos de diferentes setores da cultura, das artes e da ciência. Um espaço de debate e troca de ideias e perspectivas.